| Turbilhão
(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)
Não havia razão para eu ir até lá. Fazia muito tempo que não visitava aquela cidade.
Fazia muito tempo que estas lembranças haviam estado guardadas.
Pela estrada, o mato era só mato. Assim como em todo lugar, nada representava.
Ao longe a velha chaminé da olaria começa a se mostrar com todo seu gigantismo. Ao longe
não transparecia sua degradação.
Aos poucos pude notar, não havia fumaça, não havia carvão, não havia gente, não
havia emprego... e a velha chaminé, de toda sua imponência, já perdera alguns de seus
tijolos, a velha chaminé era ruína.
O telhado do galpão ruíra, restavam pedaços de paredes e um período de poder local. Os
fornos, espalhados aqui e ali, mais pareciam cascos de lerdas tartarugas avermelhadas
descansando ao sol.
Lentamente a cidadezinha vai se mostrando ao nossos olhos. As velhas casas ainda eram
velhas. As pedras do calçamento, testemunhas dos anos, se mantinham pela irregularidade
acusada pelo sacolejar de nosso carro.
Ao fim da avenida uma curva, uma ladeira. Então a praça. Cercada de casas antigas e de
casas velhas.
Uma estranha praça. Cuidada, tratada. Um chafariz ao centro, canteiros, ajardinados e
nenhuma sombra, nenhuma árvore, apenas bancos aquecidos pelo calor do sol.
Luminárias "modernosas", destoando das velhas fachadas pintadas de cores
velhas, assim mantidas pelo código de posturas do município... obrigatoriamente
preservadas.
Um letreiro aqui, outro ali, banco, "pharmacia", padaria...
O povo... o povo aqui, ali... arredio, desconfiado, mineiramente observador. Um papo de
compadre aqui, uma conversa de gado ali e os olhares baixos que seguiam nosso passar.
Apeamos e veio a idéia... - um café? Aceita um café?
Na verdade não era pelo café, era pela busca da distância dos longínquos últimos
trinta anos.
Talvez um rosto amigo, um sorriso relembrado, ninguém, nada, minha mente era um vazio
neste aspecto.
Exceto a chaminé, nada havia mudado, as pedras do calçamento, a casas velhas sempre
recém pintadas, o mal gosto da praça, a igreja matriz dominando o cenário, o antigo
prédio da prefeitura... nada. Nem o povo... continua arredio, desconfiado, mineiramente
observador...
Mesmo assim, nos rostos, não há um só sorriso que me faça voltar no tempo.
Um hotel... agora tem um hotel. Gostoso, aconchegante, prazeroso.
Um descanso para mim e meu parceiro de viajem. Ao anoitecer um passeio na praça.
Um bar, mesinhas e cadeiras na calçada são um convite.
- Filezinho na telha?
- Chopp? Não tem não senhor, só cerveja.
Histórias do passado borbulham como a água no chafariz.
Uma, duas, três... as garrafas se juntam, os copos tilintam e com eles as risadinhas
viram gargalhadas.
Um toque em meu ombro me faz parar de rir. Meu coração dispara. O sorriso que por todo
dia procurei se abre largo, belo como outrora.
Seu rosto, obviamente, já não tinha o frescor da juventude. Seus olhos negros me
pareceram sofridos. Seus cabelos longos ainda traziam o brilho do cuidado vaidoso. Vaidade
que ainda mantinha seu corpo esguio... altivo... atraente como a conheci.
Sim, era ela, agora sei o que fui buscar. Agora sei que sorriso procurei e a razão de
não reconhecer outros sorrisos que, até aquele momento, não se haviam feito notar.
Lá estava ela, não mais tão linda, não mais tão bela. O tempo não lhe foi cruel,
ainda era uma mulher marcante. Tão marcante quanto o turbilhão de lembranças que
invadiu meu pensamento, meu corpo, minha noite, minha vida.
O turbilhão que revirou o passado e o fez presente. Marcante, verdadeiro, ali, frente a
frente. Eu e meu passado.
Conversamos, falamos da vida, das mazelas, dos tempos, dos filhos, do meu casamento
desfeito, da viuvez precoce.
Só não falamos de nós.
Por que não falamos de nós?
Por que esquecemos de nós?
Por que morremos pra nós?
O que ficou no passado foi passado, o reencontro agora é passado, tudo está no passado,
menos o turbilhão.
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