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Aconteceu num 13 de maio
(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)
Não, não foi na Bahia.
Aconteceu em um centro espírita do Rio de Janeiro. Prestavam-se homenagens
aos velhos, aos pretos-velhos.
A platéia repleta. Católicos, cristãos, protestantes, judeus, ..., e, por
mais incrível que possa parecer, espíritas.
Permita-me uma interrupção: no meu modo de ver, cristãos são todos aqueles
religiosos, praticantes ou não, que têm dedicação de fé por Jesus Cristo.
Assim, ainda no meu entender, quase todas as religiões são cristãs.
Voltando à nossa sessão espírita... Atabaque batendo, um ponto após o outro,
incorporações, entidades "em terra", pedidos e mais pedidos... Todo mundo
acha que "santo" no terreiro é prá quebrar galho!
A mocinha senta no chão em frente da banqueta. Faz um pedido e ouve:
- Acende uma vela fia,
acende que suncê vai cunsigui essa graça.
E lá se vai a namoradeira,
toda sorridente!
D. Maria, a viúva do padeiro pede:
-
Pai Ambrósio, o Senhor precisa de me ajudar. Faz três meses que não pago o
aluguel. O Seu Manoel, o senhorio, já está me olhando de cara feia.
- Suncê não tem o bango fia?
- Tenho não!
- Suncê não dá um jeito?
- Só se eu aceitar as cantadas que ele me dá.
- A fia não aceita pruquê?
- Ah Pai Ambrósio, sei lá! Até que o portuga é ajeitadinho!
E tome batida de atabaque e cantoria.
Um cachimbo aceso, um vinho licoroso, uma pitada, uma cusparada.
A dona do terreiro se esforça, briga com uma filha, briga com outra e
finalmente vai ser servido o feijão.
Feijão de preto-velho... Coisa gostosa! Muita carne seca, farofa e couve.
Tudo misturado. Sem talher... Comido com as mãos, um bolinho feito com a
ponta dos dedos e ...
- hum!!! tá gostoso!!!
- Bota mais,...Capricha!
Na falta do coité pra todo mundo, o vinho é servido em copo de plástico
mesmo.
Atabaque, cantoria e dança,... Muita dança.
Passinho pra cá, passinho prá lá e vovó Maria Conga, de pito no canto da boca
e sorriso maroto, faz sua dança de velha festeira.
Diz pra todo mundo que foi escrava faceira. Que foi para o tronco porque não
cedeu ao patrão.
- Ele me queria lá no quartinho, um que tinha lá no fundo das baia. Onde
ficava os arreio dos cavalo da fazenda. Tinha que ser lá prá sinhá não
discubri, mas Sinhá era muié boa, num miricia isso não. Priferi morrê na
ponta da chibata!
Um grito, um salto, correria... Calma é Pedrinho! Criança levada! Rola no
chão, pede bala e guaraná. Festa de velho sem criança não é festa.
Mais um pedido:
- Pai Ambrósio, meu chefe não larga do meu pé. Agora cismou que eu tenho
que chegar na hora todos os dias. Pode isso?
- Uai fia e num tem não?
- Onde o Senhor já viu funcionário chegar na hora?
- Fia, isso vai precisá de um trabaio dos forte. Suncê vai meia noite no
cemitério, leva duas galinha preta e uma branca. As duas preta é pra seu
anjo da guarda que anda meio apagado e a branca é pro dele fica iluminado.
Num mata as bichinha não que elas num tem curpa de nada. Acende 7 vela
vermeia. Uma pra cada dia da semana. Escreve o nome do chefe sete vez num
paper virge. Em cima do nome dele, suncê derrama mel prá mode adoçá ele.
- Pai Ambrósio, e se as galinhas correrem?
- Suncê tá preocupada com o chefe ou com as galinha?
- E se não der certo, o que eu faço Pai Ambrósio?
- Num se preocupe fia... se num dé certo suncê compra um dispertadô novo,
daqueles que toca bem alto e levanta mais cedo pra trabaiá.
Bate atabaque, canta outro ponto e mais dança, muita dança.
- Eita feijão gostoso!
Eita povo bom... Gente inocente! Este é o meu povo,... Este é o povo
brasileiro!
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