| Os
Yamandus perdidos.
(Por: Marcos
Woyames de Albuquerque)
Todos, cada um de nós, nascemos com um dom. A maioria jamais se dá conta disso e assim
alguns o perdem para todo o sempre.
Ontem tive a oportunidade, pela falta de qualidade da televisão brasileira, e não é
dela que vou falar, mas da sorte de haver parado de futucar o botão do controle remoto,
no exato momento em que fazia-se uma chamada para um músico de nome indígena.
Nome do programa? Por acaso. Justamente por acaso resolvi assistir e me deliciar com
encantamento que um dom é capaz de fazer.
Um jovem de 22 anos, com o matraquear natural da idade, até certo ponto um chato, mas que
ao manusear seu instrumento fez chover encantamento e magia.
Segundo ele mesmo, seu nome foi atribuído pela "loucura" do pai que não queria
para o filho um nome comum. Este, músico apaixonado pela sonoridade da língua tupi
encontrou em Yamandu (o "precursor das águas") a musicalidade que sonhou para o
nome de seu filho.
Menino e músico rebelde, desistiu cedo dos estudos e dos bancos, deixando de lado tanto
escola das letras, quanto a escola da música na sua forma tradicional, limitando-se,
segundo suas próprias palavras, a saber ler partituras.
Esperem, não é deste gênio musical que quero falar. Não se é capaz de exaltar o
bastante quando a genialidade, a virtuosidade é taxativamente reconhecida.
Quero sim, falar do dom, do dom de cada um. Dos dons não encontrados por cada um de nós
e que jamais serão exaltados.
Tantas são as vozes límpidas, como a de Milton Nascimento ou de Pena Branca, que jamais
serão ouvidas.
Tantas são as palavras melodiosas e harmônicas, como as de um Vinícius de Moraes, que
jamais serão lidas.
Tantos serão os traços não coloridos pelos Portinaris anonimamente desconhecidos.
Dons de vidas desencontradas, que jamais deliciarão nossos sentidos, que jamais nos
permitirão chegar perto daquilo que só aos celestiais deuses é permitido.
Em nossas escolas, já não ensinam música, muito menos as artes, os trabalhos manuais e
o artesanato foram esquecidos, ... a religião, o civismo, a literatura. E ainda falam em
cidadania!
Concluo que única e exclusivamente da rebeldia dos Yamandus, sobreviverão os virtuosos.
Entretanto, aqueles que têm o dom e que por si só jamais se rebelarão, estes estarão
irremediavelmente perdidos.
Tão perdidos quanto nós, que sem a oportunidade de nos deliciar com os Yamandus
desconhecidos, ficaremos alijados do melhor que a arte pode nos dar e que se chama
talento.
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