O chuchu da minha sogra

 

(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

 

 

Era ainda início de namoro.

Alguns meses haviam se passado e me sentia realmente encantado pela moça.

O convite, feito dias antes, não havia como ser recusado.

Pela primeira vez iria almoçar na casa de sua família.

Era a oportunidade de conhecer os pais daquela que havia balançado meu coração.

Durante o pouco tempo de namoro a moça havia sido reticente em relação a seus pais.

Sinceramente, não sabia o que esperar!

Naquela manhã me preparei para dividir o domingo com meus futuros sogros.

Conhecidos apenas pelos nomes ou por um ou outro comentário. Tudo completamente superficial!

Confesso, me sentia pouco à vontade!

Ao chegar, fui recebido por meu futuro sogro. Sentado em uma velha cadeira de palha. Sem sequer levantar, por alguns instantes tirou seu olhar do jornal dominical e, com um grito dirigido ao interior da casa humilde, anunciou minha chegada.

Trocamos um breve aperto de mãos e ele prontamente retornou à sua leitura. Ignorou-me completamente pelo resto da manhã.

Maria, ao grito do pai, prontamente apareceu à porta. Com um leve tocar de lábios nos cumprimentamos. Sorriso claro e os olhos muito azuis iluminavam o rosto emoldurado por cabelos loiros, presos ao alto da cabeça.

Seguindo a filha vem ela... a minha futura sogra! Mulher simples, miúda, olhos verdes e pequenos. Saberia eu, com o tempo, que dentro daquele corpo tão pequeno cabia uma mulher e tanto.

Atenciosa, carinhosa e meiga, entretanto não deixava de mostrar sua força de mulher interiorana. Uma mulher acostumada à enxada e ao escaldar do sol.

Eu disse mulher miúda? Ela era baixinha, muito baixinha!

Delicada no trato, porém altiva.

Conhecendo-se a mãe, não pela aparência, pois o tempo não lhe tinha sido complacente, mas por seu jeito doce e amigável, fica fácil adivinhar a razão do meu encanto pela filha.

- Prazer, meu filho! Seja bem vindo a esta casa! Sente-se e fique a vontade, minha filha lhe fará companhia enquanto termino o nosso almoço.

Voltou-se sobre os calcanhares e sumiu atrás da porta.

Pouco depois da uma da tarde somos chamados:

- Filha, trás seu namorado e sentem-se à mesa para almoçar!

Confesso que há muito não sentia um cheirinho tão gostoso em uma comida.

Orgulhosa do seu saber optou por demonstrar, naquele dia, seus dotes culinários e, quem sabe, conquistar definitivamente, pelo estômago, um marido para a filha!

Meu sogro, homem de pouca conversa, continuou calado, em silêncio sentou-se, em silêncio ficou e em silêncio comeu.

Transcorria o almoço com pouca conversa. Alguma coisinha aqui, outra ali, porém nada de importante que merecesse registro, mas havia uma exceção, e tinha que acontecer justo no primeiro almoço...

- Você não comeu chuchu!

- Obrigado, estou satisfeito!

- Coma um pouco de chuchu.

- Obrigado, senhora, estou satisfeito!

- Por que não quer o chuchu?

- Vou lhe ser sincero, eu não gosto de chuchu!

- Você diz isso porque ainda não comeu o chuchu que eu preparo!

- Vou lhe ser sincero novamente... eu odeio chuchu!

- Eu vou repetir, você diz isso porque ainda não provou do "meu" chuchu!

A ênfase na palavra "meu" não me deixou outra saída! Eu não conheço argumento maior do que "eu odeio!", porém aquela mulher simplesmente não tomava conhecimento da minha rejeição pela maldita leguminosa. E teimava em insistir que o "seu" chuchu seria diferente.

- Está bem, vou comer um pouco do "seu" chuchu!

Meia colher, apenas meia colher, e isso foi tudo o que minha coragem permitiu pegar. Só coloquei no prato por questão de educação. Minha vontade era levantar da mesa, sair pela porta e nunca mais voltar, mas eu gostava daquela moça, gostava mesmo.

Talvez enfiar pela boca adentro e engolir o mais rápido possível  e, sem mastigar, fosse uma solução

Enrolei o quanto pude... passei a comer tudo muito devagar na procura por uma saída. Quem sabe ela esquecia?

- Não vai comer o chuchu?

Não havia jeito! Coloquei todo o bendito legume no garfo e joguei pela boca adentro. O raio do chuchu se recusava a descer. Pior, insistia em voltar! Toda a água de um copo duplo foi necessária para fazê-lo descer.

- Gostou?

A resposta foi seca, fria e sem qualquer conotação de sensação.

- É! ...Bom!

Não sabia o que era pior o chuchu ou a mentira.

Maldita resposta! Por que eu tinha que dizer que estava "bom"? Tanta coisa para ser dita e eu disse "bom"!

Felizmente ela não me ofereceu mais chuchu!

- Eu não disse? O meu chuchu é especial! Ninguém prepara um chuchu como eu!

Pensei comigo mesmo, pelo menos nunca mais vou ter que comer chuchu.

Ledo engano! A partir daquele dia e por todo o resto de vida de minha maravilhosa sogra, e o maravilhosa é verdadeiro, toda vez que eu chegava na casa da velhinha mais amável que conheci, ouvia uma frase que me dava arrepios:

- Que bom que você veio, vou fazer aquele chuchu que você gosta!

 

 

 

 

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