Menino de rua II

(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

 

Um dia pulei o muro.

 Lá dentro ficou meu cruel abrigo. Ficou também o pouco que me restava de amor. Ficou minha mãe e ficaram meus irmãos.

 A revolta não, ...Esta eu trouxe comigo.

 Do lado de fora do muro eu posso correr. Do lado de fora do muro sou livre.

 Corro, sou livre! Posso correr!

 Corro, corro, corro! 

Enquanto corro outros correm comigo. Já não estou tão só. Aqui fora tenho iguais. Muitos mais. Não estou só!

 Nas praças, nos parques, nas ruas, em todo lugar tenho iguais. Meninos que vieram do outro lado do muro, ou não. Meninos que nunca estiveram lá, ou não. Meninos que nunca tiveram chance. Meninos como eu. Meninos que na inocência correm atrás de uma chance. Da chance que não conhecem, porém, da forma que conhecem.

 Agora sou livre... livre!

 Sou? Será que sou?

 Tenho fome, tenho frio, tenho medo!

 Peço ajuda não me dão. Estendo a mão e é em vão. No sinal, no bar, na vida... nada!

 Tenho fome, tenho frio, tenho medo!

 Tenho fome e roubo o primeiro pão.

 Apanho da polícia.

 Tenho frio e roubo o primeiro agasalho.

 Sou menino de rua... Meto medo!

Revolta, só revolta!

 Conheço a droga.

 Tenho fome, me dão droga.

 Tenho frio, me dão droga.

 Tenho medo, a droga aplaca.

Drogado não dói! Só revolta mais e mais!

 Cola, maconha, cocaína, bebida... Sem fome, sem frio, só revolta.

 Quero droga, já não me dão.

 Sou prisioneiro da droga. Preciso da droga e já não me dão.

 Tenho que roubar e me drogar.

 Tenho medo, tenho que me drogar para roubar.

 Já não sou mais menino de rua, sou pivete. Delinqüente!

 Novamente corro. Mais que da fome, mais que do frio. Fujo da polícia.

 Um dia sou preso. Pelo crime de não ter chance, sem julgamento, sem direito algum sou levado para dentro do muro.

 Desta vez um muro diferente daquele que um dia foi abrigo. Este é um muro de castigo. Neste muro não tem obrigação. Tem castigo, surra, é um muro sem compaixão. Um muro de concreto e grades. Um muro sem educação!

 Revolta, muito mais revolta!

 De revolta em revolta nasce a revolução.

 Novamente me ponho em cima do muro. Desta vez não penso, apenas me jogo no mundo. 

Corro, corro, ...corro o mais que posso, quero ser livre!

 Não corro só, muitos correm comigo... fuga em massa!

 Polícia, cães, tiros, feridos, mortos...

 Está decidido... agora será assim... mato ou morro!

 Corro!

 Tenho medo! Tenho medo!

 A droga aplaca meu medo!

Não quero ter medo!

 Não tenho mais medo, só revolta!

 Já não sou pivete, sou menor delinqüente. Sou pior, sou menor reincidente!

Mato ou morro!

A droga é meu abrigo. É meu seguro de vida ou de morte.

 E meus irmãos, estarão vivos? Onde andará minha mãe?

 Não tenho mais seu colo.

 Já não posso chorar!

 Os homens não choram!

 Meus homens não podem me ver chorar. Mato quem me ver chorar!

 Mato ou morro!

 Morro... sou só notícia no jornal!

 

 

 

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