Herança

 

(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

 

Estávamos no quarto do hospital, junto a meu pai, quando minha filha me chamou e pediu:

- Pai, vamos andar um pouco, eu estou precisando?

 

Saímos do quarto e fomos caminhar na varanda que circunda todo o andar do hospital. E, mais uma vez, é minha filha quem fala:

- Pai, o que estamos fazendo aqui?

 

Pensei muito antes de responder. O que tinha em minha resposta precisava ser verdade e aquela verdade, aquela que eu tinha por dizer seria muito dolorida. Principalmente por ser uma verdade irrefutável. Meu pai estava no final de seus momentos e a realidade era uma só, aguardávamos a sua morte.

 

Da varanda, no segundo andar do prédio, olhei ao longo da rua e pude ver que, alheios a tudo, alguns meninos jogavam bola em um campinho de terra batida. Mais adiante um ponto de ônibus repleto de pessoas indo para suas vidas quotidianas. Logo a frente, num alarido próprio dos jovens, um grupo de estudantes que, pela hora, deveria estar matando aula. Pouco a pouco a mim me foi dado o direito de encontrar a resposta correta, aquela que mostrasse a minha filha a forma mais amena de aceitar a partida definitiva de seu avô.

 

- Olhe filha, observe... Olhe para as pessoas em volta deste hospital. Será que alguma delas sabe o que está acontecendo conosco? Será que alguma delas está doente? Será que alguma delas tem um parente doente? O que será que a vida preparou, para cada uma delas, no dia de hoje? Observe ainda que apesar do que aconteça a cada uma delas as outras irão continuar a viver. Com ou sem doença, com ou sem parentes, cada uma é uma vida que certamente irá prosseguir em seu rumo até o dia em que será o último de seus dias.

 

- Observe também que, apesar de nenhumas delas saber, é delas que estamos falando e ainda, apesar de assim desconhecerem, neste exato momento estamos fazendo parte de suas vidas, como elas estão fazendo parte de nossas vidas.

 

- Pois bem, filha, por muitos momentos o vovô fez parte de nossas vidas. Mais até, foi o vovô quem nos deu direito à vida. Foi o vovô quem nos fez o que somos para que tivéssemos nossas próprias vidas, assim como fez o avô dele e o avô do avô dele.

 

- Todos passaram aqui e nos deixaram sua herança, assim como nós deixaremos nossa herança. Esta, minha filha, é a maior herança que podemos deixar a nossos filhos e netos. A cada um de nós que passa, esta herança só aumenta. Neste momento Deus prepara a cada um de nós para sermos a maior das heranças do seu avô. Uma herança tão grande que se fará seguir e prosseguir pelos meus netos, pelos seus netos e pelos netos de nossos netos... Uma herança que irá somar e multiplicar pela eternidade.

 

Em silêncio voltamos ao quarto... Minha filha se dirigiu a meu pai deitado em silêncio em seu leito de morte, deu-lhe um beijo na testa e disse: Vô eu te amo muito!

 

Talvez meu pai nunca tenha chegado a saber a razão daquele beijo, mas aquele beijo, muito mais do que qualquer outro era parte da herança de amor que ele nos deixou.

 

 

 

 

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