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Cotidiano
(Por:
Marcos Woyames de Albuquerque)
Hoje, final de janeiro, era de se esperar
um calor infernal na já não tão linda cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Porém, pelo que dizem ser efeito do El Niño, amanheceu chuviscando e a temperatura amena
faz de nós cariocas, naturalmente quentes, talvez um pouco menos alegres.
No ponto, enquanto aguardava o ônibus, pus-me a observar o vai e vem das pessoas. Algumas
aflitas pelos minutos de atraso, outras nem tanto. Algumas atentas à direção dos
ônibus, outras perdidas em conversas perdidas aos meus ouvidos atrapalhados pelo
burburinho da grande avenida.
Onde estará meu ônibus? Aos poucos começo a ser parte dos aflitos da hora.
Faço sinal, uma corridinha e lá vou eu.
Neste aspecto sou privilegiado, meu destino e contrário ao fluxo das pessoas, não
trabalho no centro da cidade. Posso tranqüilamente viajar sentado, escolher onde sentar.
Hoje, especialmente pela ausência do sol, me sento em uma janela ao lado direito.
E, de sinal em sinal, de ponto em ponto, vou observando, lugares, pessoas, instantes
estanques que se me apresentam.
A chuva pára, os guarda-chuvas se fecham e os rostos começam a se mostrar.
A moça elegante, com aspecto de secretária, bonita, muito bonita. Levanta o braço, faz
sinal e se irrita, seu ônibus não pára. Não é nada elegante o palavrão que sai de
sua boca.
E segue minha viagem. Na porta do banco, uma fila. Gente, muita gente. Ainda tão cedo e
lá estão eles. Todos os dias lá estão eles. Na porta do banco, cabelo branco seguindo
cabelo branco, na espera sofrida pelo salário da sobrevida, na ansiedade esperançosa
pela mudança de vida que não vem. Na busca da pensão do remédio, do aluguel, dos
óculos vencidos, dos anos de trabalho sofrido que no fim da vida só conseguiram levar
seu parcos cabelos brancos à fila do banco.
O guarda de trânsito apita e com um tranco, um arranco, lá segue o ônibus sua irritante
rota que torna e retorna, passa e repassa e me leva aos meus futuros cabelos brancos.
No bar da esquina, o café amargo sorvido corrido, talvez o único "alimento do
dia", é pago em moedas contadas e lá vem um homem que corre, bate com as mãos na
lateral do ônibus e o hoje de bom humor motorista abre a porta para o ofegante que
embarca.
Letreiros, out-doors, tentam me convencer das maravilhas que fariam de mim um homem feliz,
proprietário, bem formado, milionário, negociante, comprador, vendedor... Perdidas
letras ao passar da janela!
Deitado, sujo, emporcalhado, um mendigo, um louco, uma criança, mil faces de uma
sociedade cruel que insiste em ser cega e seus pares renega... teima em não ver.
Porta de igreja, me benzo, alguns repetem mecanicamente o gesto, estariam pensando em Deus
naquele momento? Em que Deus? Qual o pensamento?
Uma freiada, gritos, uma busca d'olhos, correria... pobre mulher, pobre motorista de
taxi... Duas vidas desgraçadas na loucura cotidiana de uma cidade sem alma.
Do lado de lá da rua, o frentista se "dobra" ao lado de um carro envidraçado e
de dentro um bem vestido metido se limita a dar gorjeta, parte tirada de alguma mutreta
pela troca do serviçal.
E lá vai o ônibus, sacolejando, serpenteando me pondo a cada instante, me levando a cada
dia em seus bancos, mais próximo dos meus cabelos brancos.
Meu destino... voltou a chover, os rostos se escondem por trás dos guarda-chuvas.
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