| Anda, pára, anda, pára ...
a segunda
lua de mel.
(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)
Tudo pronto. Havia um ano que aquela viagem
estava sendo planejada.
Seria
nossa segunda lua de mel, ou a terceira, ou a quarta... todas haviam sido uma tentativa de
reinicio. Aquela não, aquela nós queríamos realmente fazer, aquela nós queríamos
realmente tentar reviver o sonho da primeira lua de mel.
Carro
revisado, pneus novos, óleo trocado, limpadores funcionando, luzes conferidas, tudo
pronto para a partida.
Crianças
na casa da vovó, saldo bancário conferido, portas da casa trancadas, vizinhos alertados
para movimentos estranhos... perfeito, tudo perfeitamente planejado.
Aqui vamos
nós.
Você e eu,
eu e você e mais ainda, a liberdade de estarmos sós.
Sem rumo
definido, sem destino. Iremos seguindo, ou parando, aonde a vontade der, aonde a vontade
quiser.
- As
malas... as malas estão todas no carro?
- Claro
amor!
- Pegou o
bronzeador?
- Claro
amor!
- O talão
de cheques?
- Na minha
bolsa amor!
- Tem
certeza de que não falta nada?
- Tenho
amor.
Viro a
chave, o motor do carro prontamente responde... finalmente, depois de tanto tempo,
consegui acertar com um bom mecânico.
Agora é
só uma parada no posto, abastecer, calibrar os pneus, verificar a água, o óleo e
pronto, iremos em busca do nosso paraíso.
Desço a
rua onde moramos e pego a avenida central ... engarrafamento!!
- Bobagem
amor, você passa por isso todo dia, daqui a pouco estamos na estrada e você vai ver,
tudo será diferente!
Anda,
pára, anda, pára...
-
"tio, me dá um trocado, me ajuda vai?"
- O Diaaaa!
Globooo! Extraaaa!
-
"água, coca-cola, skol gelada, um real!"
Linha
amarela, engarrafada, é só um trecho pequeno, logo logo acaba!
Entroncamento
com a linha vermelha.
- Lugar
perigoso este aqui! Você soube?
- Vi na tv,
houve tiroteio ontem a noite, dois mortos. Morro de medo!
- Também
pudera, olha o que fizeram com esta gente. Construíram casas - se bem que amontoadas -,
fizeram escolas, praças lindíssimas, quadras de esportes, sistemas sociais que
teoricamente seriam fantásticos!
Em volta de
tudo puseram uma cerca.
Não
fizeram nenhum trabalho de adaptação das pessoas à sua nova condição. Me desculpem os
"entendidos", mas pra mim, isso é isolamento social!
- Amor,
vamos esquecer isso, estamos indo viajar, tirar nossas férias merecidas.
Finalmente
a linha vermelha, sem trânsito, limite 90Km/h, perfeito. Não temos pressa, correr pra
que?
- Olha
amor, como esse cara está correndo! Parece um louco! Ih, vem mais um... sirene, polícia,
polícia ... melhor eu encostar... TIROS, TIROS, ABAIXA, ABAIXA!
- Ufa!
Passaram, melhor eu ir bem devagar e deixar que se afastem.
- O que
teria acontecido amor?
- Não sei,
liga o rádio, vê se fala alguma coisa.
Nada... no
rádio nada, acho que jamais iremos saber.
- Põe um
CD? Nada como viajar com musiquinha.
BR 040 -
Rio-Juiz de Fora, passando por Petrópolis.
- Amor, que
tal uma paradinha em Petrópolis? Na rua Tereza poderemos comprar umas roupinhas para as
meninas. Elas estão precisando.
- Amor,
nós estamos viajando de férias, não estamos indo ao shopping comprar roupas!
- Puxa
amor, precisa falar assim?
- Precisa
fazer esse bico?
- Eu não
faço bico, você é que nunca pensa em mim nem nas crianças.
- Eu? Eu
passo toda a minha vida pensando em vocês, tudo o que faço é para vocês e agora me vem
com essa! Era só o que me faltava!
- E tem
mais uma coisa, já chega, não começa a estragar a viagem.
Silêncio
total... agora o silêncio domina viagem.
Menos o
barulho do CD... já é a terceira vez que repete e ela não troca essa droga!
No mais
completo silêncio, eu e ela, subimos a serra.
"Bem
que eu podia ter parado em Petrópolis, mas agora, só de raiva, vou direto."
"Que
bela companheira de viagem eu arranjei, olha só como dorme!
Pensei em
dar uma freiada só pra dar um sustinho... Não, melhor deixar ela dormindo, pelo menos
assim não me aporrinha!
Hotel
Fazenda Serra Verde: Chalés, piscina, lago, pedalinhos, charretes, cavalos, passeios,
caminhadas, salões de jogos, comida mineira.... "hummmmmm, Ideal!"
- O que
você acha?
- O que? O
que foi que você disse?
- Droga,
você veio passear ou dormir?
- Foi só
um cochilinho!
- O hotel
fazenda?
- Qual?
- O da
placa!
- Pronto,
já passou a entrada, agora não dá pra voltar!
- Talvez
não fosse tão bom assim! Vamos ver o que vem por aí!
Estrada e
mais estrada, asfalto e mais asfalto, pedágio... outro pedágio... puxa! Que
roubo!
Decido sair
da BR. Vamos procurar uma cidadezinha calma, algo bem gostosinho, aconchegante.
Pousada da
Tia Eufrázia, paz e tranqüilidade. Ideal para quem quer estar a sós.
- Querido,
que tal? Me parece ideal para nossa primeira noite.
- Depois
que saímos da BR, já estamos rodando há mais de cinco horas.
- Ótimo,
um lugarzinho gostoso, aconchegante, sossegado e só nós dois. Está pensando o que eu
estou pensando?
- Seria
maravilhoso querido!
A primeira
vista o lugar não nos pareceu tão aconchegante quanto o out-door na estrada, mas...
vamos lá!
O quarto
não era dos piores, a cama bem... o colchão era de crina (palha), mas com boa vontade
era até simpático.
-
"Jantá servido às 18:30, café da manhã até às 10 e se o senhor quisé, pode
bebê leite na teta da vaca, mas vai tê que madrugá. Oia, os cachorro são manso, mai
num aconceio bota as mão neles não pro causo de que arguns tem sarna"
- Amor, é
aqui que vamos ficar?
- Já que
estamos!
- Amor,
vamos aproveitar para um banhozinho? Ainda temos um tempinho antes do jantar!
- Amor,
não tem chuveiro, só banheira e a água está fria pacas!
- Moço,
não tem água quente?
- "Tem
sim dona, o barde fica lá em cima fogão de lenha na cozinha. Pó pegá!"
- Amor, com
um pouquinho de boa vontade e carinho, você vai ver que é até romântico.
- Hum que
delícia... vamos nos amar na banheira?
- Hã, hã!
- Amor, a
água ainda está fria, tem que pegar mais água quente.
- Eu tô
pelado!
- Eu
também.
- Vamos
tomar banho rapidinho e deixar o amorzinho pra depois da janta?
-
Combinado!
Batem na
porta... - "hora da boia! A janta tá servida!"
Frango com
quiabo, angú, arroz branco, feijão com torresminho... comidinha caseira!
Jantar
perfeito. O silêncio só foi quebrado pelo barulho dos talheres nos pratos.
- Amor,
vamos nos recolher? O Olhar matreiro dizia tudo!
- É amor,
amanhã seguimos viagem cedo.
-
"Moço, é mió levá um lampião pro causo de chovê e fartá luz"!
Não deu
outra, ...temporal! Raios, trovoadas, muitas trovoadas!
Goteira
justamente em cima da cama. Pareec que chove mais dentro do quarto do que lá fora.
Arrasta
prá lá, arrasta pra cá... Finalmente conseguimos um cantinho que não pinga. Tudo isso
no escuro, levamos o lampião, mas não levamos fósforos. Só na base da luz dos
relâmpagos.
- Amor, vem
cá, deita aqui, vamos esquecer tudo e viver nossas férias?
- Está
até engraçado, vai ficar por conta da aventura... daqui a algum tempo ainda vamos dar
boas gragalhadas!
- Vem, me
dá um beijo... hum!!!
- Hum o
que?
- Que
cheiro é esse? Ai! Horrível!!!
-Também
estou sentindo
-
Percevejo, é percevejo... o colchão está cheio de percevejo!!!
- Eu não
fico mais aqui, vamos embora!
Saio na
chuva, ...um mar despenca do céu.
Um rio de
lama pelas pernas acima!
- Quero a
minha conta, não fico mais um minuto neste pardieiro!
- "O
Sr pode até num ficá, mas o carro docês num sai daqui."
- Como
não?
- "A
estrada tá qui num passa nem tratô, o rio transbordô. Agora só quando amanhecê é qui
nois vamos sabê se pode fazer a vorta lá pelo sítio do Zeca."
Que noite!
Nunca imaginei que passaria uma noite assim.
Na manhã
seguinte o sol mostrou sua força, o rio baixou as águas e com a ajuda muitos baldes para
limpar a lama de dentro do carro e mais de uma parelha de bois, conseguimos atravessar o
atoleiro.
- Amor,
vamos seguir viagem?
- Com que
roupa? O que não está sujo de lama está com percevejo.
- Amor,
sinceramente, eu prefiro voltar pra casa. Estou sentindo falta das crianças.
Cinco horas
de viagem e chegamos à BR 040... pedágio, mais outro pedágio... linha vermelha... um
louco dirigindo, outro louco... entroncamento com a linha amarela.
- Este
lugar é perigoso, ...isolaram socialmente estas pessoas.
- Amor...
viajar é muito bom, mas voltar pra casa é muito melhor!
- Amor,
vamos deixar para pegar as crianças amanhã?
- Vamos! |