| O andarilho
(Por:
Marcos Woyames de Albuquerque)
Faz muitos
anos e eu era apenas um adolescente na antiga Guarapari.
Antiga sim,
pois a de hoje é outra. Explorada, usada, ocupada, sem nenhum romantismo. Antes, um lugar
de terra, mata, mar, sol e muita, muita luz. Hoje, uma floresta de asfalto e concreto.
Resultado da especulação imobiliária e da exploração desmedida de suas dádivas
naturais.
Naquela
plaga magnífica predominou o doce da minha juventude. Foi lá que conheci um homem muito,
muito especial.
Apenas um
andarilho sem camisa perambulando pelas ruas. Aquecido pelo sol, pelo incrível sol
capixaba .
Dormia aqui
e ali, no exato lugar em que o sono dava.
Comendo
quando lhe davam. Cabe aqui um adendo... nunca soube que roubara.
Marginalizado,
ignorado, algumas vezes abjeto. Desprezado... louco varrido. Varrido da sociedade, jogado
pra escanteio, largado no mundo. Mendigo de todo, por completo. Sem abrigo, sem abraço,
sem comida e sem laço. Menos que isso... sem nome, apenas um apelido "Jóia".
Duas coisas
porém chamavam a atenção de todos: sua postura pessoal e seu físico avantajado. Alto,
forte, espadaúdo, olhar absoluto, superior.
Um sorriso
permanente fazia de si um ser intrigante. Em seu semblante o ar de tranqüilidade tornava
possível notar um algo além.
Por muitos
anos, na pequena Guarapari dos anos 60, sua presença foi parte da paisagem. Quando menos
se pudesse esperar, aquela figura mendiga se mostrava presente.
Homem de
pouquíssimas palavras. Uma frase repetida justificava o apelido "jóia, tudo
jóia!". Tantas quantas fossem as vezes que seu olhar sorridente cruzasse com outros
olhares, tantas seriam as vezes em que afirmaria "jóia, tudo jóia!".
Para dar
veemência, sua fala era acompanhada de um único gesto indicando o positivismo, o punho
direito serrado e polegar voltado para cima.
Não me
passou pela compreensão o otimismo daquele homem. Eu, um jovem social, consumista,
capitalista, de educação particularmente formal, não poderia imaginar a razão do seu
ar superior e claramente feliz.
Guarapari,
como toda cidade de veraneio, no período de "invernada", se via pacata,
sossegada, vazia, muitas vezes monótona.
A tarde de
inércia propiciava um azedume da alma jovem, sedenta de movimento. Me vi tão
perambulante quando o andarilho.
Inesperadamente
nossos caminhos se cruzaram.
Pedra do
Siribeira, de frente para o mar, brisa fresca no rosto e filosofia juvenil na cabeça...
em outras palavras, praticava eu o salutar exercício de ser um observador da natureza.
Tão
absorto em meus pensamentos que não me apercebi da aproximação. Confesso, levei um
susto ao virar meu rosto e tê-lo ao meu lado. Olhava exatamente para o mesmo ponto onde
instantes atrás eu me encontrava perdido em meus pensamentos.
Fração de
segundo se passou até que virou, olhou-me de frente, abriu seu inacreditável sorriso e,
polegar para cima, afirmou com a mais absoluta certeza "jóia, tudo jóia!"
Não
resisti. Minha dúvida precisava ser dirimida. - Como pode estar tudo jóia se você vive
da mendicância, se não tem abrigo, se por muitas vezes tem fome?
A resposta
foi rápida, firme, consciente... - Nasci pelado e hoje estou vestido, o que mais devo
pedir a Deus?
Falou,
virou costas e se foi repetindo... "Jóia, tudo jóia!" ... "Jóia, tudo
jóia!"
Só então
notei que naquele exato dia o homem estava particularmente mais feliz.
Alguém
provavelmente havia lhe dado uma camisa nova.
Antes de
atingir a praia ele tirou a camisa, rodopiou-a no ar e, virando de frente para mim
gritou... "Jóia, tudo jóia!" . Deu uma enorme gargalhada e seguiu deixando as
marcas de seus pés na dourada areia da praia.
O sol se
pôs no horizonte, mas a imagem, o sorriso, a frase do andarilho ficaram para sempre em
meus horizontes.
|